segunda-feira, 20 de abril de 2009

Cinema e televisão em dois tempos


Dentre os vários assuntos do nosso cinema de província, no momento em que escrevo esta coluna, dois fatos se nos apresentam importantes: o primeiro diz respeito diretamente ao cinema, sobretudo, à nossa Academia e aos que dela fazem parte; o segundo está relacionado com a televisão nossa de cada dia.

No final do mês passado, contamos com a presença do cineasta Nelson Pereira dos Santos, em João Pessoa. Entre nós, esteve participando de uma das atividades dos 30 anos do Nudoc, evento que vem sendo promovido pela UFPB. Naquela oportunidade o cineasta de “Vidas Secas” foi agraciado com o Diploma de Sócio Benemérito da Academia Paraibana de Cinema.

Na semana passada, dentro de um festival carioca, Nelson Pereira foi mais uma vez reconhecido com o Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro, no Espaço Vivo Rio. O cineasta de 80 anos foi um dos precursores do Cinema Novo e atualmente faz parte da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paraibana de Cinema. Para homenageá-lo, o ator Carlos Vereza fez-lhe a entrega do troféu “Grande Otelo”, que Nelson agradeceu emocionado: “É o troféu mais valioso na minha vida de cinema” - disse.

O segundo assunto, sobre televisão, vem por força de um e-mail que recebi da Maria Luíza, do SEBRAE. Segundo ela, a Tatsu Comunicação Corporativa traz a João Pessoa, nos dias 25 e 26 de abril, o curso "TV na prática", com o jornalista Marcus Bezerra. O curso é focado em reportagem de TV. O conteúdo engloba produção de textos para telejornalismo, técnicas de entrevista, postura diante das câmeras e narração. O aluno fará gravação de entrevistas, de passagens e de narração, com avaliação imediata.

Muito bem. Esta pode ser uma boa oportunidade para quem vai ministrar essas aulas, respeitando as diferenças terminológicas do Cinema e da Televisão, aplicar alguns corretivos nos habituais erros que se cometem. Por exemplo, determinar que não SE FILMA pra televisão; mas SE GRAVA. Em razão disto, mesmo com experiência de treze anos em televisão, e tendo trabalhado na Rede Globo (RJ e PE) e suas afiliadas, repórteres e apresentadores dessas emissoras continuam errando. Eles têm “globalizado” expressões ridículas como “cinegrafista”, para os profissionais de câmeras de TV.

Haja "Estômago” para tanto desconhecimento! Não me refiro à obra do cineasta Marcos Jorge, que venceu o recente Festival de Cinema do Rio, na categoria mais esperada, a de melhor longa-metragem de ficção e também direção, ator coadjuvante e roteiro original. Mas, o estômago sensível daqueles que estudam e discutem com seriedade as coisas do cinema.

ALEX SANTOS – professor e cineasta da Academia Paraibana de Cinema.
E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@academiaparaibanadecinema.com.br

sábado, 4 de abril de 2009

Redescobrindo, no cinema, valores amigos

Lendo “Os Cinemas de Currais Novos” (Edições Viradouro-João Pessoa/2003), de Manoel Jaime Xavier Filho, médico conceituado na Paraíba, faço-o com certa sofreguidão. Como quem saboreia o mais sublime dos manjares. Mais ainda, porque redescubro no colega imortal da Academia Paraibana de Cinema, como se já não bastassem outros atributos que possui no campo da Medicina, sua veia poética sobre as coisas do cinema.
Digo ”redescubro”, simplesmente porque já o tinha parceiro nas reflexões cinematográficas, quando, em seu livro “Descobrindo a Cidade de João Pessoa”, anos antes, o amigo Jaime já se debruçava sobre o nosso cinema, inclusive me citando com “Cinema & Revisionismo”, livro que publiquei em 1982, pela Editora A União/PB. Referência que me honrou muito e que fiz questão de retribuir, em artigo sob o título “À guisa do que mais somos...”, publicado no dia 07 de setembro de 2006.
Pois bem, houve de existir a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente, quando das primeiras reuniões para a formação da nossa Academia Paraibana de Cinema. Não terá sido surpresa alguma da minha parte, encontrar uma pessoa altamente apaixonada pelo cinema como o amigo Dr. Manoel Jaime. Sereno, porém preocupado com os detalhes da nossa APC; arguidor, quando necessário, aos arroubos de outro amigo nosso, Wills Leal.
No seu novo livro – “Os Cinemas de Currais Novos” –, uma particularidade: Jaime vai fundo às raízes das primeiras salas de exibição de filmes de sua cidade natal, alevantando nomes e fatos pertinentes ao que se propõe: historiar sobre uma Arte de povo, que, diferentemente de algumas outras, “aprendeu” com as massas a ser o mais importante veículo de entretenimento que jamais conhecemos.
Outro especial detalhe por mim captado no seu livro, quando ele afirma, “cinespaciando” em um dos capítulos: “O próprio dono do cinema viajava ao Recife onde locava os filmes. (e que) Era obrigado a alugar, de cada vez, um conjunto, com boas e péssimas películas, sem o direito de opção: uma prática tão antiga quanto a própria invenção do cinema.” Aqui, Jaime discorre sobre o estoicismo vivido também pelo meu pai (“Seu” Severino do cinema) e por mim, que o segui vivenciando essa saga durante anos. Esse terá sido, óbvio, o nosso “Paradiso”!...
Concluindo, parabenizo o confrade acadêmico (dublê de médico-cinéfilo) por sua notória sensibilidade sobre as coisas do Cinema. E que nossas reflexões, passadas e presentes, sobre tão importante segmento cultural e artístico tenham vida longa. E terminaria usando um dos trechos que considero emblemáticos do seu livro: “Entretenimento e cultura, sentimentos e emoções estiveram presentes em suas salas e ante-salas, alimentando sonhos e fantasias em sintonia com o inevitável realismo do dia-a-dia.” Esse é o Cinema, amigo Jamie, que nos é tão caro!

ALEX SANTOS – da Academia Paraibana de Cinema.
E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@academiaparaibanadecinema.com.br
contato@asprod.com.br

domingo, 29 de março de 2009

Glauber Rocha revisitado nos Estados Unidos

Ao fazer um cinema socialmente vigoroso, inovador, mas numa ótica não politicamente sectária, e que servisse de parâmetro ao discernimento da realidade política de então, ou em qualquer fase da vida brasileira, Glauber Rocha optou por uma proposta de renovação, também, do próprio cinema nacional. Em março, mês do seu aniversário de nascimento, parte de sua obra foi revisitada nos Estados Unidos, dentro de um processo de restauração do seu grande acervo.

Em seus contundentes pronunciamentos Glauber consegue ser mais direto ao afirmar que a fome latina não é apenas uma questão simplesmente real, alarmante, mas “é o nervo da sua própria sociedade”. E ratifica a função e originalidade do Cinema Novo, quando faz referência direta ao cinema paraibano, citando o documentário “Aruanda”, de Linduarte Noronha.

Subvertendo a ordem de construção das coisas, aplicando rimas inusitadas à linguagem cinematográfica, procurando impor diferenciações ao academicismo exacerbado e ao esteticismo de cunho formal importado, para ele nocivos à arte, Glauber fez com que o Brasil pensasse o Brasil.

Em sua obra, uma reflexão onde o politicamente óbvio das manifestações populares ganhe o essencial na arte, sem rodeios ou máscaras, sem que interviesse negativamente no sentido da proposta, mas servido como base para uma tomada nova de atitude dentro do fazer artístico. E cujo modelo jamais se distanciasse da nossa própria realidade enquanto povo.

A rigor, um cinema histórica e revolucionariamente engajado, nitidamente inovador “gramaticalmente”, embora difícil de ser entendido na época. Isso nos fazendo lembrar o pensamento maiacoviskiano de que, “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Esse era o ponto de vista glauberiano e de tantos outros cineastas cinemanovistas comprometidos com as necessidades de mudanças políticas e estéticas de sua época.

Se vivo fosse, Glauber Rocha estaria vivendo uma nova realidade política, cinematograficamente? A que grau de intensidade a sua subversão de linguagem estaria hoje com os novos recursos da imagem digitalizada? A complexidade do seu cinema seria menos complexa nos tempos atuais? São questões de difíceis respostas sem a sua presença no cenário cinematográfico brasileiro.

ALEX SANTOS – da Academia Paraibana de Cinema. E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@academiaparaibanadecinema.com.br contato@asprod.com.br

sábado, 21 de março de 2009

APC lança seu primeiro Boletim informativo

A Academia Paraibana de Cinema, em mais uma de suas realizações, acaba de lançar o primeiro número do seu boletim informativo, podendo ser lido no próprio site da entidade (http://www.academiaparaibanadecinema.com.br/). A Editoria é deste colunista, que igualmente produziu o design gráfico do periódico, que vem sendo amplamente elogiado pelos membros da Academia.
Com o título de Informe APC, a publicação será bimensal e traz vários espaços destinados a informações da própria Academia e de seus membros. No seu primeiro número, além de matérias sobre a recente instalação da entidade e posse de seus fundadores, traz as homenagens prestadas ao cineasta Nelson Pereira dos Santos e ao artista plástico Flávio Tavares, em recepções muito concorridas.
Outro destaque do Informe foi para o lançamento do curta-metragem “Elipse: A Idade do Cinema”, realização da AS Produções, que foi exibido para comemorar o Dia Mundial do Cinema. A exibição foi feita no Cine Mirabeau, como parte de vasta programação da inauguração da primeira Cadeira da APC, que tem como patrono Assis Chateaubriand e ocupante o próprio dono da sala de exibição Mirabeau Dias.
Uma coluna especial intitulada “Atividades dos Acadêmicos” trata dos assuntos mais relevantes de cada membro da entidade, seus projetos e realizações no campo da cinematografia. Informações essas fornecidas pelos próprios membros da entidade, que fazem questão de participar da programação da APC, que está sendo anunciada para este ano.
O “Calendário de Atividades da APC” é outro espaço destinado à previsão de programas já traçados pela entidade para 2009. Nele, estão sendo anunciadas as seguintes ações: Exibição de “Uma Verdade Inconveniente”, documentário de Al Gore (USA), no Auditório da UFPB e Exposição de antigos equipamentos cinematográficos, no Shopping Tambiá, durante os meses de março e abril.
Para o mês de maio, durante o CINEPORT, haverá o lançamento do Catálogo Festival de Cinema e Atividades Afins na Paraíba, em 2009 e a versão impressa do Diretório da APC. Em junho, Reunião da Academia, em Campina Grande, e visita ao Projeto Roliúde Nordestina, em Cabaceiras/PB.

ALEX SANTOS – Membro da Academia Paraibana de Cinema.
E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@asprod.com.br contato@academiaparaibanadecinema.com.br

sexta-feira, 6 de março de 2009

ACP homenageia Nelson Pereira e Flávio Tavares



O cineasta Nelson Pereira dos Santos, que esteve recentemente em João Pessoa, vivenciou dois momentos importantes junto à Academia Paraibana de Cinema. O primeiro foi no Auditório da Reitoria da UFPB, quando da abertura das celebrações dos trinta anos do Núcleo de Documentação Cinematográfica (NUDOC), numa iniciativa do acadêmico João de Lima, diretor do núcleo de cinema universitário.

Naquela ocasião esteve presente a Diretoria do APC, representada pelos acadêmicos Wills Leal, Alex Santos e José Bezerra, além de outros integrantes da Academia. Foi exibido o clássico filme “Vidas Secas” de Nelson Pereira, a sessão foi seguida de um amplo debate. Um número considerável de pessoas superlotou o auditório, prestigiando assim a vinda do grande cineasta brasileiro à Paraíba.

O segundo momento de Nelson Pereira junto à APC foi na Academia Paraibana de Letras. Ali lhe foi outorgado o Título de Sócio Benemérito da Academia Paraibana de Cinema, pelo que agradeceu sensibilizado. Oportunidade em que o cineasta carioca fez parte de uma concorrida mesa de discussão sobre a problemática do cinema nacional e da Cultura em geral visto ser o próprio Nelson membro da Academia Brasileira de Letras.

Quanto ao artista plástico (hoje Secretário de Governo do Estado) Flávio Tavares, a Academia Paraibana de Cinema realizou na sexta-feira 13 de fevereiro um encontro de confraternização. As atividades aconteceram na residência do acadêmico José Bezerra Filho, numa verdadeira noite de Artes. Na ocasião foi entregue ao pintor Flávio Tavares – autor da logomarca da Academia - o diploma de Sócio Benemérito da entidade cinematográfica paraibana.

Foram exibidos documentários das Solenidades de Inauguração da APC, no Hotel Tambaú, em fins de dezembro passado, além de “Caminhada de um escravo da arte” de José Bezerra Filho, “Os carnavais do Clube Cabo Branco nos anos 50 e 60” de Damásio Franca, além de um “pot-pourri” das chanchadas carnavalescas da Atlântida, brindando assim o período de Momo. A noitada terminou com uma forte dose etílica e confraternização.

ALEX SANTOS – da Academia Paraibana de Cinema.
E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@academiaparaibanadecinema.com.br
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Enfim, o Brasil venceu o Oscar...

Espanto? Mas, por que tanto espanto? Não terá sido surpresa alguma o fato de o Brasil ter vencido o Oscar deste ano. Tantos que acharam impossível isso acontecer, havia muito, ficaram decepcionados; Eu não. À frente do famoso Oscar, a cena brasileira com todos os seus argumentos e roteiros, atores e figurinos, cenografias, jogos de câmera e direção nunca foi tão contundente como desta vez. Deu um banho em Hollywood!

Tenho comentado todos os anos sobre as limitações do cinema brasileiro frente ao grande símbolo de glamour americano, que é a estatueta doirada do Oscar. Dessa feita previ que podíamos suplantar essa rotineira limitação, que, convenhamos, tem a idade do próprio Oscar. E não deu outra: vencemos disparados em qualidade, musicalidade, efeitos especiais, cenografias, atuações e, melhor, muita brasilidade! Que se cuide o cinema do Tio Sam!...

Ao contrário do que se pensa, desta vez os ares americanos sopraram simbolicamente ao nosso favor, impermeabilizados que estamos (quase) aos ventos negativos de uma crise deflagrada naquele País. Quiçá, por isso, pela primeira vez a Emoção nacional tenha postergado a Razão, criando mecanismos de superação jamais experimentados em épocas de tapetes vermelhos e da grande Cena Brasileira.

A grande festa do Cinema, em todos os tempos e para todo o mundo, essa sim, entendo, ainda esteja a nos dever os méritos de qualidade artística e oportunidades, que tanto o nosso cinema merece. Não têm sido poucas as tentativas de reconhecimento neste sentido, mas continuamos “nadando, nadando e morrendo na praia”. Quem sabe não será n”O ano em que meus pais saírem de férias” a oportunidade de colocarmos a mão no símbolo doirado do cinema?...

ALEX SANTOS – da Academia Paraibana de Cinema.
E-mails: alexjpb@yahoo.com.br / contato@asprod.com.br
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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Repercussão sem maiores semânticas

Anos atrás, um apresentador de televisão imprimiu a máxima “isso... é uma vergonha!”. Jargão que repercutiu no país todo. Do ponto visual da câmera de interesse do seu telespectador e olhando fixo para outra chamada de “câmera da verdade”, o sempre polêmico apresentador externava toda a sua insatisfação sobre coisas que, em sendo “âncora” do telejornalismo, não concordava. Fez prevalecer também discutido senso de brasilidade, segundo muitos, quando assumia a expressão RECORDE; e não “récorde”, como normalmente se usa.

Mas, qual a relação de tudo isso com o cinema? Costumo afirmar que no exercício da Arte e da Cultura, nada é uno ou se esgota em si mesmo. Lembrando Drummond, diria que a “coisa” são sempre duas: ela mesma e o significado dela. Lendo artigo num dos jornais esta semana, de um dos nossos historiadores mais “honorianos” deparei-me com uma sentença curiosa. Por que não dizer, verdadeira: “o importante em um autor não provém da tese que perfila, mas da repercussão que obtém”. Muito correto!

A letra fria impressa no papel revela apenas uma idéia. Um posicionamento, quiçá, um bom motivo à reflexão. O que conta realmente é o entendimento dessa mesma idéia e sua utilidade na vida prática. O exemplo dado acima, do “âncora” e apresentador de TV se nos parece válido enquanto respeitoso ao próprio sentido etimológico da palavra. Jamais importaria a muitos, se RECORDE ou “récorde” represente a mesma coisa ou algo diferentemente extraordinário, e até em detrimento à própria gramática nacional.

Ainda assim, levando-se em conta se determinada expressão seria, igualmente, apenas mais um óbice em tese, de uma tese que pretende corrigir algo (supostamente) errado, e cooptado aos moldes do nosso ilustre historiador, o bom senso nos diz que o mais importante é a repercussão que essa mesma tese poderá obter. Digo isto fundado na questão de que também no cinema e nos audiovisuais há o uso de expressões técnicas mal alocadas à sua própria natureza terminológica, e sobre o que já tive oportunidade de discorrer em outras ocasiões.

Em sendo assim, o “deveser” consiste no uso correto de determinados dogmas ou terminologias, que são próprias de cada área do conhecimento humano e da sua conseqüente difusão. Em “Cinema e Televisão: Uma relação antropofágica” levanto a questão do uso incorreto de expressões técnicas entre os “media”, alimentando a expectativa de que uma simples tese de Mestrado, devidamente fundamentada, possa repercutir e ser entendida sem maiores semânticas nos meios em que for discutida.

ALEX SANTOS – da Academia Paraibana de Cinema
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